O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por que sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados.
Milan Kundera
A vertigem é desejo de cair que se dá, na medida em que toda a realidade da existência vem à tona ao mesmo tempo. O desencadeador é traiçoeiro, pois pode ser qualquer coisa: uma imagem, uma palavra, uma lembrança, uma situação, um sentimento… Ou, simplesmente, a ausência de tudo isso. Desse modo, também não é possível escapar à vertigem, visto que não é possível controlar os rumos da vida. Entretanto, isso não quer dizer que todos têm ou terão um dia vertigem.
Ela, a vertigem, é só para aqueles cuja existência é um fardo demasiadamente pesado para suas forças. É fato que a existência é um fardo para todos, porém há aqueles que são mais fracos. E não há embaraço nisso. Uns são mais fracos que outros por simples capricho da natureza. Quanto a isso, paro por aqui, ou, para ir adiante na tentativa de explicar a
disparidade humana por pura vontade da natureza, teria que apelar para qualquer coisa como a metafísica (shopenhaueriana).
Se pensarmos na vertigem, nesse desejo da queda, veremos que ela é a mais autentica personificação da vontade do nada, mesmo que inconsciente. Não é por acaso que o desejo é de ir ao chão. O chão personifica, de imediato, o desejo do nada. Ela é o mais próximo do que poderemos encontrar do, por assim dizer, ensaio para morte.
Como foi dito, depois de causada por um estopim qualquer, toda a realidade da existênci
a vêm à consciência, esse é o momento da visão plena de si e de tudo o que isso significa, da lucidez, o momento em que o homem transcende sua própria existência (pois só é possível ter clareza de algo, enxergar todas suas dimensões nos mínimos detalhes e contemplar a existência em sua completude, fora dela) e, por isso, é seguida pela tontura e apagões na vista, o desejo de cair. Isso porque o que há além da existência é o nada: é aí que o corpo pede o chão.


1 comentário
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maio 16, 2010 às 2:03 am
Rodrigo Cássio
Bela reflexão.