Visitei ontem meu antigo curso na PUC. Fiquei impressionado com a quantidade de novos alunos. Eu, que cheguei a freqüentar disciplinas com 4 e 5 alunos matriculados, fico muito feliz com esse “ressurgimento das cinzas”. O curso passou por uma grave crise entre 2005 e 2010 (por motivos que desconheço), que talvez ainda não esteja superada, mas tudo indica que estão no caminho certo. Entretanto, talvez fosse preciso rever a estrutura curricular do curso, hoje organizada em módulos. Se tal estrutura permite uma renovação constante e afasta o fantasma do fechamento, na minha modesta opinião, também compromete a qualidade do conteúdo, no sentido que o aprofundamento nos problemas filosóficos fica comprometido pela presença constante de calouros. Mas, afinal, o que nesse mundo é perfeito?
Calor. Aula. Conteúdo difícil. Professor muito concentrado. Os alunos tensos, pedindo exemplos, não compreendendo o conteúdo. O professor se desdobrando em explicações. De repente aquele aluno caladinho que fica bem no centro da sala, que não tirou os olhos do professor desde o início da explicação, levanta o braço. O professor imagina que dali sairá uma luz, acontecerá um insight, a parusia, a volta de Jesus Cristo ou qualquer coisa do tipo. O professor dá a palavra para o aluno e ele diz: “Posso ir no banheiro?”

o corpo fala, transporta, edifica, rui, sela, entrega, suporta, rompe, sofre, sorri, chora….é gerúndio
Estou fascinado pelo movimento….o que é o presente se não o futuro tornado-se passado…o lapso dessa tranposição é o que chamamos presente.
Existência: da excitação à angustia… do gozo ao desprazer… do eterno ao efêmero.
viver é mergulhar no absurdo ao ponto de sentir a pressão das profundezas dissiparem tua consciência e lógica. Estamos presos ao tempo, ao espaço, ao ser…
Não consegui postar aqui no blog com antecedência, mas essa semana apresentei uma comunicação sobre Nietzsche na semana de filosofia da UFG. O título é Nietzsche a crítica ao Estado Moderno e o resumo reproduzirei abaixo. Refiz o artigo umas cinco ou seis vezes após ter enviado o resumo, porém acredito que (o resumo) ainda continua coerente com o texto. Uma última coisa, uma tal de Araceli, inresponsável pela publicação do caderno de resumos, atribui ao meu texto o nome de outra pessoa . Mandei uns três e-mails reclamando, mas a dona, talvez por achar que não deva satisfação, resolveu ignorar. Fiquei bastante contrariado, mas além de amaldiçoá-la pelo resto da vida, não posso fazer nada. Eis o resumo:
Resumo: A preocupação de Nietzsche com a cultura está presente também em seus escritos políticos. Para o filósofo, o Estado deve ser instrumento da cultura e, entre suas atribuições, está a função de promovê-la. Esse seria o principal motivo, pelo qual, não vê com bons olhos o Estado Moderno liberal, posto que esse, da forma que se encontra organizado, não é capaz de criar meios de produção de cultura, enfraquecendo, assim, a vida.
Nessa perspectiva, de crítica ao Estado Moderno, Nietzsche tece amplos elogios ao estado grego antigo, pois, através da arte trágica e de seu elemento catártico, conseguiram escoar seus instintos, isto é, a organização de estado grega foi capaz de construir uma alternativa a agressividade física inerente ao humano, a saber, a arte. Nesta sociedade, criar e manter a civilidade foi possível através do escoamento da agressividade nas guerras, nas quais se envolviam, e na ausência de tais conflitos, a tarefa de manter o mínimo de harmonia dentro da cidade deu-se pela invenção da arte trágica.
Ao analisar a organização política dos gregos antigos, Nietzsche entende que domínio, controle, exploração e violência são ímpetos humanos que não se desvinculam do agir político. O Estado seria a institucionalização de tais ímpetos e o mecanismo de sublimação. Nesses termos, o Estado como continuação dos ímpetos do homem é ‘inevitável’, visto que, o homem possui o que Nietzsche denomina n’O estado grego de ‘instinto de estado’. Para Nietzsche, os gregos conseguiram pensar e executar uma forma de governo na qual seus instintos naturais manifestavam-se livremente através das competições, rivalidades, lutas nos jogos atléticos, das manifestações artísticas e considerando mesmo ímpetos como rancor, inveja, ciúme, egoísmo, etc. como estímulos para o aprimoramento da civilização.
Com essa interpretação, o filósofo se distancia dos teóricos modernos que pregavam o Estado, puramente, como fruto da racionalidade humana. Nietzsche entende que não existe separação entre homem e natureza, para ele, o homem em suas mais altas e nobres capacidades é totalmente natureza.
As criticas de Nietzsche ao Estado Moderno se fundam, principalmente, no fato de que este existe em função de si mesmo, fazendo, assim, com que a vida política gire em torno da resolução de seus próprios problemas: o Estado Moderno forja-se em unção das suas satisfações mais urgentes, com vistas à manutenção da vida. As críticas do filósofo se fazem mais ácidas com relação aos pensadores iluministas, para quem, como pensadores da liberdade, são apenas niveladores, visto que vão contra a natureza humana ao pregar a máxima da ‘igualdade de direitos’. Ao teorizar sobre a igualdade dos homens, isto é, sobre o nivelamento dos homens, por meio do Estado Moderno liberal, os iluministas estão, atentando contra à humanidade, à natureza humana, posto que natureza humana, na filosofia nietzschiana, significa hierarquia, diversidade, pluralidade, diferença.
O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por que sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados.
Milan Kundera
A vertigem é desejo de cair que se dá, na medida em que toda a realidade da existência vem à tona ao mesmo tempo. O desencadeador é traiçoeiro, pois pode ser qualquer coisa: uma imagem, uma palavra, uma lembrança, uma situação, um sentimento… Ou, simplesmente, a ausência de tudo isso. Desse modo, também não é possível escapar à vertigem, visto que não é possível controlar os rumos da vida. Entretanto, isso não quer dizer que todos têm ou terão um dia vertigem.
Ela, a vertigem, é só para aqueles cuja existência é um fardo demasiadamente pesado para suas forças. É fato que a existência é um fardo para todos, porém há aqueles que são mais fracos. E não há embaraço nisso. Uns são mais fracos que outros por simples capricho da natureza. Quanto a isso, paro por aqui, ou, para ir adiante na tentativa de explicar a
disparidade humana por pura vontade da natureza, teria que apelar para qualquer coisa como a metafísica (shopenhaueriana).
Se pensarmos na vertigem, nesse desejo da queda, veremos que ela é a mais autentica personificação da vontade do nada, mesmo que inconsciente. Não é por acaso que o desejo é de ir ao chão. O chão personifica, de imediato, o desejo do nada. Ela é o mais próximo do que poderemos encontrar do, por assim dizer, ensaio para morte.
Como foi dito, depois de causada por um estopim qualquer, toda a realidade da existênci
a vêm à consciência, esse é o momento da visão plena de si e de tudo o que isso significa, da lucidez, o momento em que o homem transcende sua própria existência (pois só é possível ter clareza de algo, enxergar todas suas dimensões nos mínimos detalhes e contemplar a existência em sua completude, fora dela) e, por isso, é seguida pela tontura e apagões na vista, o desejo de cair. Isso porque o que há além da existência é o nada: é aí que o corpo pede o chão.
Ele sempre buscou algo. Era uma busca por instinto. Buscava por sentir que devia buscar, pois, em seu íntimo, sempre houve a impressão de lhe faltar algo. Sua mãe dizia que era falta de uma esposa ‘direita’ que pudesse lhe dar filhos (e, claro, netos a ela). Na tese de seu pai, o que lhe faltava era um emprego melhor, com um salário melhor. Já seus amigos acreditavam que lhe faltavam mais sextas-feiras na vida, para beber mais e esquecer mais.
Ele, porém, não queria esquecer. Sua vontade era encontrar. Encontrar aquilo que tinha a sensação de ter perdido. Mas não sabia nem por onde começar a procurar, posto que não sabia o que tinha perdido.
Resolveu então seguir os conselhos alheios. Namorou sério uma, duas, três moças, mas a incompletude e a solidão não desapareceram. Depois namorou não tão sério e, mesmo assim, a sensação não deu trégua. Não casou, como sua mãe apetecia, por achar que isso já era demais. Mudou, também, três vezes de emprego. E até que no último deles o salário era, deveras, melhor. Mesmo assim, não conseguiu calar a voz que dizia que era preciso continuar procurando. Testou, também, a hipótese dos amigos. Decidiu, então, aumentar suas sextas, fazendo de suas quartas, sextas. E até que, por uns tempos, o álcool pareceu ter substituído aquilo que tinha a sensação de ter perdido. Mas foi provisório. Logo a sensação voltou a falar mais alto.
Um dia por acaso leu alguma coisa de Schopenhauer e descobriu ser a vida dor e sofrimento. Quis saber mais e foi atrás da obra desse filósofo que parecia lhe conhecer tão bem. Mergulhou, então, nas leituras do filósofo alemão, da mesma forma que afundava-se nas cadeiras dos botecos da cidade. E por um tempo, da mesma forma que o álcool, Schopenhauer pareceu ser aquilo que tinha a sensação de ter perdido. Mas não era. Decepcionou-se com Arthur (como preferia chamá-lo) e o abandou definitivamente, quando descobriu que seu niilismo era, deveras, niilismo.
Persistiu, no entanto, na busca. Procurou o padre. Este lhe garantiu ser Deus aquilo que tinha a sensação de estar procurando. Decidiu-se por acompanhar o padre numa jornada espiritual. Rezou, rezou e nada. O padre percebendo entregou-lhe as confissões de Agostinho. Ele, então, entregou-se com afinco à leitura. Mas não viu muita diferença metafísica entre o Deus de Agostinho e os chocolates das Americanas.
Por fim, tentou entrar para um mosteiro budista. Entretanto, foi difícil esperar cair a noite do primeiro dia para de lá sair correndo.
Tentou de tudo: amor, religião, filosofias, chocolates, mas nada parecia corresponder àquilo que tinha sensação de ter perdido e que não sabia o que era; e quando achou que deveria por fim à sua busca, encontrou o mar. Experimentou a brisa que vem dos oceanos tocar-lhe o corpo num inicio de noite e pôde pensar na vida, no caminho, nas pessoas e em si. Experimentou também o choro; as lágrimas confundirem-se com a água salgada do mar que a maré trazia. Experimentou, tendo o mar e o céu como testemunhas, a dor e o remorso. Experimentou reconciliar-se consigo e com o mundo, tendo o sol a despontar no horizonte. E finalmente sentiu que achara. Que finalmente havia encontrado o que procurava desde sempre: seu lugar ao sol, seu lugar no mundo, seu lugar.
Quinta-feira, 31 de dezembro de 2009, 21h53min.
Não há palavra que melhor defina o ano que chega ao ocaso que “dúvida”. Para usar termos de Heidegger, essa “disposição de humor” assombrou-nos do inicio ao fim de 2009. Não que isso seja de todo ruim, pois, para se ter certezas e alguns tipos de verdades, é necessário que antes tenhamos cruzado o vale da dúvida. E mesmo que não se possa definir esse ano como o vale da dúvida – posto que, para tanto, seria necessário, no mínimo, uma década -, 2009 serviu para mostrar que não se pode construir vidas em meio ao vão incerto da dúvida.
Assim, com a missão de suceder o ano das incertezas, 2010 se aproxima. Esperamos que ele nos dê a oportunidade de juntar os entulhos gerados pelo turbilhão das dúvidas do ano que se encerra para se recomeçar, mesmo que do zero. Que seja o ano do chão firme, sobre o qual se possa erguer, com segurança, um bom alicerce. Que seja o ano em que o absurdo não surpreenda a vida, em que a liberdade não seja ameaçada e, sobretudo, em que o hoje se transforme em nossa prioridade e, assim, não seja necessário que o presente ceda sua vez à esperança.
A.
Quinta feira, 31 de dezembro de 2009 – 23:00h
Que a incerteza não se faça certeza, pois na vida toda verdade e solidez é tão efêmera quanto a carne que reclama todos os dias o alimento nutritivo e a perpetração dos desejos . Mas que a incerteza possa traduzir-se em possibilidades, e que possibilidade possam traduzi-se em iniciativa e que iniciativa possa traduzir-se como presente; pleno na sua fugacidade e displicência e vivido na sua opacidade, contentemo-nos com ela.
Viver é mergulhar no absurdo ao ponto de sentir a pressão das profundezas dissiparem tua consciência e lógica. Às vezes falamos tanto da morte que ela passa a ter mais corporeidade que a vida, e de fato o tem, mas viver o que é se não uma morte lenta e dolorosa. Sem dúvida temo a próxima hora que me mostrará uma nova porta, ela será escancarada às possibilidades. Mas há sem sombra de dúvidas dois tipos de reação diante do medo: na primeira se fica paralisado, sem reação, anônimo e insosso, e na segunda, ao profundo desejo, que ressalto não ser fruto da razão e nem comandado por ela, de preservação da existência, então luta-se, combate-se, os heróis nascem aí, tenaz linha que separa a morbidez da intrepidez, sejamos heróis de nossa consciência e não prisineiros da esperança de que alguem nos salve, .
Desejo-nos em 2010 a intrepidez.
N.
Longe de mim encarnar um critico de cinema, para tal não tenho competência técnica. Mas, Recentemente assiste o filme “A vida dos Outros” de Florian Henckel von Donnersmarck, e algumas peculiaridades na trama me chamaram atenção.
O filme analisado se passa na Alemanha dividida por um muro de concreto e por outro ainda maior, ideológico. De um lado os ideais do capitalismo ganhavam força e de outro impera os valores socialistas, mantidos por um comunismo ferrenho.
Distanciando um pouco do ponto de vista das vítimas, abordagem comum nesse tipo de filme, a obra de Florian Henckel seleciona outra óptica, a dos algozes, o modo particular em que os mesmos vêem e se impõem na trama línea da espionagem. O dramaturgo Georg Dreyman (Sebastian Koch) é o foco ao qual olhos do serviço secreto miram. Um cidadão modelo, aparentemente sensível aos ideais do comunismo, fato explícito em suas dramaturgias. Do outro lado está Gerd Wiesler (Ulrich Mühe), servo da causa vermelha, encontra na intuição motivos para espionar Dreyman, e assim se solidifica a trama.
Para que compreendamos as ações naquele momento histórico, entendamos o que seja ideologia. Segundo a filosofa Marilena Chauí, ideologia consiste precisamente na transformação das idéias da classe dominante em idéias dominantes para a sociedade como um todo. Os partidários das Teorias Crítica Frankfurtianas consideram ideologia como um conjunto de idéias, ações e discursos que mascaram o objeto, mostrando somente um vértice da realidade, a que convir. Mas como se certificar de que tais idéias encontrem aceitação? Na verdade não se pode garantir a menos que se tenha um controle sobre o modo de pensar, expressar das pessoas, daí parte a necessidade de manipular, espionar, ou seja, de garantir que nada possa ser pensado contrariamente ao que se expresse como ideal. Esse é o grande trunfo socialista: controle.
Wiesler, após começar sua investigação, constata que seu investigado tem algumas coisas a esconder. Mas por que não denunciá-lo? Num voyeurismo Wiesler encontra na vida de Dreyman uma significância para sua própria vida, como se na vida do outro houvesse uma espécie de redenção anunciada, em que encontraria um sentido ideal para si mesmo. Seria por bondade? Não! Seria uma forma de romper com a sua própria negação, um lamento, um murmúrio pela vida medíocre que está imerso. E a partir daí há um confronto entre a alienação a que se sucumbe pela ideologia, e seu desejo de viver a vida do outro, ao menos num mundo que ele mesmo construiu.
Há nos transcorrer da trama alguns momentos em que a escolha se faz expressa numa sintaxe própria, e concomitante deve-se acolher as conseqüências. Segundo Sartre, somos seres livres, e nos fazemos mediante as escolhas que nos propomos. Estamos livres e sem desculpas. Isso causa-nos uma angústia, pois coloca-nos em posse de nos mesmos.
Diante do impasse entre entregar o segredo daquele que o acolheu no peito ou negar seu próprio futuro e anular-se, esta a escolha. Mas entregá-lo seria lícito? Sim, seria pelo fato de tal atitude ser expressão do bom cidadão – ou boa cidadã – que cumpre seu dever cívico e o faz dentro da lei. Mas se não o fizer estará agindo erroneamente? Não, pois se o fizesse trairia aquele em que a confiança foi devotadamente lançada. O que fazer? Romper com a ideologia? Dificilmente resolveria, pois uma ideologia só é vencida por outra, como o nazismo foi substituído pelos ideais comunistas. Responsabilidade social? Talvez se o peso da ação e o braço forte e impiedoso das escolhas não recaíssem sobre os de boa índole. Ética? Mas isso realmente significa ser justo dentro da moral regida pela lei? Difícil dizer. O que irrompe da trama é a escolha. O ato de escolher propõe, constrói, destrói, sufoca, alivia. Mas é nesse movimento que o humano se constrói. O outro é outro numa dinâmica que eu desconheço, no máximo posso construir um outro a quem eu gostaria de me tornar, mas já não mais seria outro, seria eu.
A peça se emudece em três focos: Christa-Maria (Martina Gedeck) não suporta o peso da ação tomada calcando-se na responsabilidade social e definha diante do pior dos algozes, a consciência. Dreyman recebe a recompensa dos fortes, a liberdade, donde pretensamente descobre que há tempos não habita e que seus segredos não eram somente seus. E finalmente Wiesler parece encontrar em sua ação uma nostalgia, uma reconciliação tardia consigo mesmo. Mas consciente de que a purgação não garante redenção. Melhor dizendo: não há redenção!
No fritar dos ovos a dinâmica do filme não consegue orresponder à sua motivação transgressora, não consegue repensar maniqueísmos. Mas enfim, é um bom filme.
Clique na imagem acima e veja o trailer.




