Ele sempre buscou algo. Era uma busca por instinto. Buscava por sentir que devia buscar, pois, em seu íntimo, sempre houve a impressão de lhe faltar algo. Sua mãe dizia que era falta de uma esposa ‘direita’ que pudesse lhe dar filhos (e, claro, netos a ela). Na tese de seu pai, o que lhe faltava era um emprego melhor, com um salário melhor. Já seus amigos acreditavam que lhe faltavam mais sextas-feiras na vida, para beber mais  e esquecer mais.

Ele, porém, não queria esquecer. Sua vontade era encontrar.  Encontrar aquilo que tinha a sensação de ter perdido. Mas não sabia nem por onde começar a procurar, posto que não sabia o que tinha perdido.

Resolveu então seguir os conselhos alheios. Namorou sério uma, duas, três moças, mas a incompletude e a solidão não desapareceram. Depois namorou não tão sério e, mesmo assim, a sensação não deu trégua. Não casou, como sua mãe apetecia, por achar que isso já era demais. Mudou, também, três vezes de emprego. E até que no último deles o salário era, deveras,  melhor. Mesmo assim, não conseguiu calar a voz que dizia que era preciso continuar procurando. Testou, também, a hipótese dos amigos. Decidiu, então, aumentar suas sextas, fazendo de suas quartas, sextas. E até que, por uns tempos, o álcool pareceu ter substituído aquilo que tinha a sensação de ter perdido. Mas foi provisório. Logo a sensação voltou a falar mais alto.

Um dia por acaso leu alguma coisa de Schopenhauer e descobriu ser a vida dor e sofrimento. Quis saber mais e foi atrás da obra desse filósofo que parecia lhe conhecer tão bem. Mergulhou, então, nas leituras do filósofo alemão, da mesma forma que afundava-se nas cadeiras dos botecos da cidade. E por um tempo, da mesma forma que o álcool, Schopenhauer pareceu ser aquilo que tinha a sensação de ter perdido. Mas não era. Decepcionou-se com Arthur (como preferia chamá-lo) e o abandou definitivamente, quando descobriu que seu niilismo era, deveras, niilismo.

Persistiu, no entanto,  na busca. Procurou o padre. Este lhe garantiu ser Deus aquilo que tinha a sensação de estar procurando. Decidiu-se por acompanhar o padre numa jornada espiritual. Rezou, rezou e nada. O padre percebendo entregou-lhe as confissões de Agostinho. Ele, então, entregou-se com afinco à leitura. Mas não viu muita diferença metafísica entre o Deus de Agostinho e os chocolates das Americanas.

Por fim, tentou entrar para um mosteiro budista.  Entretanto, foi difícil esperar cair a noite do primeiro dia para de lá sair correndo.

Tentou de tudo: amor, religião, filosofias, chocolates, mas nada parecia corresponder àquilo que tinha sensação de ter perdido e que não sabia o que era; e quando achou que deveria por fim à sua busca, encontrou o mar. Experimentou a brisa que vem dos oceanos tocar-lhe o corpo num inicio de noite e pôde pensar na vida, no caminho, nas pessoas e em si. Experimentou também o choro; as lágrimas confundirem-se com a água salgada do mar que a maré trazia. Experimentou, tendo o mar e o céu como testemunhas, a dor e o remorso. Experimentou reconciliar-se consigo e com o mundo, tendo o sol a despontar no horizonte. E finalmente sentiu que achara. Que finalmente havia encontrado o que procurava desde sempre: seu lugar ao sol, seu lugar no mundo, seu lugar.

Quinta-feira, 31 de dezembro de 2009, 21h53min.

Não há palavra que melhor defina o ano que chega ao ocaso que “dúvida”. Para usar termos de Heidegger, essa “disposição de humor” assombrou-nos do inicio ao fim de 2009. Não que isso seja de todo ruim, pois, para se ter certezas e alguns tipos de verdades, é necessário que antes tenhamos cruzado o vale da dúvida. E mesmo que não se possa definir esse ano como o vale da dúvida – posto que, para tanto, seria necessário, no mínimo, uma década -, 2009 serviu para mostrar que não se pode construir vidas em meio ao vão incerto da dúvida.

Assim, com a missão de suceder o ano das incertezas, 2010 se aproxima. Esperamos que ele nos dê a oportunidade de juntar os entulhos gerados pelo turbilhão das dúvidas do ano que se encerra para se recomeçar, mesmo que do zero. Que seja o ano do chão firme, sobre o qual se possa erguer, com segurança, um bom alicerce. Que seja o ano em que o absurdo não surpreenda a vida, em que a liberdade não seja ameaçada e, sobretudo, em que o hoje se transforme em nossa prioridade e, assim, não seja necessário que o presente ceda sua vez à esperança.

A.

Quinta feira, 31 de dezembro de 2009 – 23:00h

Que a incerteza não se faça certeza, pois na vida toda verdade e solidez é tão efêmera quanto a  carne que reclama todos os dias o alimento nutritivo e a perpetração dos desejos . Mas que a incerteza possa traduzir-se em possibilidades, e que possibilidade possam  traduzi-se em  iniciativa e que iniciativa possa  traduzir-se como presente; pleno na sua fugacidade e displicência e vivido na sua opacidade, contentemo-nos com ela.

Viver é mergulhar no absurdo ao ponto de sentir a pressão das profundezas dissiparem tua consciência e lógica. Às vezes falamos tanto da morte que ela passa a ter mais corporeidade  que a vida, e de fato o tem, mas viver o que é se não uma morte lenta e dolorosa. Sem dúvida temo a próxima hora que me mostrará uma nova porta, ela será escancarada às possibilidades.  Mas há sem sombra de dúvidas dois tipos de reação diante do medo: na primeira se fica paralisado, sem reação, anônimo e insosso, e na segunda, ao profundo desejo, que ressalto não ser fruto da razão e nem comandado por ela,  de preservação da existência, então luta-se, combate-se, os heróis nascem aí, tenaz linha que separa a morbidez da  intrepidez, sejamos heróis de nossa consciência e não prisineiros da esperança de que alguem nos salve, .

Desejo-nos em 2010 a intrepidez.

N.

Longe de mim encarnar um critico de cinema, para tal não tenho competência técnica. Mas, Recentemente assiste o filme “A vida dos Outros” de Florian Henckel von Donnersmarck, e algumas peculiaridades na trama me chamaram atenção.

O filme analisado se passa na Alemanha dividida por um muro de concreto e por outro ainda maior, ideológico. De um lado os ideais do capitalismo ganhavam força e de outro impera os valores socialistas, mantidos por um comunismo ferrenho.

Distanciando um pouco do ponto de vista das vítimas, abordagem comum nesse tipo de filme, a obra de Florian Henckel seleciona outra óptica, a dos algozes, o modo particular em que os mesmos vêem e se impõem na trama  línea da espionagem. O dramaturgo Georg Dreyman (Sebastian Koch) é o foco ao qual olhos do serviço secreto miram. Um cidadão modelo, aparentemente sensível aos ideais do comunismo, fato explícito em suas dramaturgias.  Do outro lado está Gerd Wiesler (Ulrich Mühe),  servo da causa vermelha, encontra na intuição motivos para espionar Dreyman, e assim se solidifica a trama.

Para que compreendamos as ações naquele momento histórico, entendamos  o que seja ideologia. Segundo a filosofa Marilena Chauí, ideologia consiste precisamente na transformação das idéias da classe dominante em idéias dominantes para a sociedade como um todo. Os partidários das Teorias Crítica Frankfurtianas consideram ideologia como um conjunto de idéias, ações e discursos que mascaram o objeto, mostrando somente um vértice da realidade, a que convir.  Mas como se certificar de que tais idéias encontrem aceitação? Na verdade não se pode garantir a menos que se tenha um controle sobre o modo de pensar, expressar das pessoas, daí parte  a necessidade de manipular, espionar, ou seja, de garantir que nada possa ser pensado contrariamente ao que se expresse como ideal. Esse é o grande trunfo socialista: controle.

Wiesler, após começar sua investigação, constata que seu investigado tem algumas coisas a esconder. Mas por que não denunciá-lo? Num voyeurismo Wiesler encontra na vida de Dreyman uma significância para sua própria vida, como se na vida do outro houvesse uma espécie de redenção anunciada, em que encontraria um sentido ideal para si mesmo. Seria por bondade? Não! Seria uma forma de romper com a sua própria negação, um lamento, um murmúrio pela vida medíocre que está imerso. E a partir daí há um confronto entre a alienação a que se sucumbe pela ideologia, e seu desejo de viver a vida do outro, ao menos num mundo que ele mesmo construiu.

Há nos transcorrer da trama alguns momentos em que a escolha se faz expressa numa sintaxe própria, e concomitante deve-se acolher as conseqüências. Segundo Sartre, somos seres livres, e nos fazemos mediante as escolhas que nos propomos. Estamos livres e sem desculpas. Isso causa-nos uma angústia, pois coloca-nos em posse de nos mesmos.

Diante do impasse entre entregar o segredo daquele que o acolheu no peito ou negar seu próprio futuro e anular-se, esta a escolha. Mas entregá-lo seria lícito? Sim, seria pelo fato de tal atitude ser expressão do bom cidadão – ou boa cidadã – que cumpre seu dever cívico e o faz dentro da lei. Mas se não o fizer estará agindo erroneamente? Não, pois se o fizesse trairia  aquele em que a confiança foi devotadamente lançada. O que fazer? Romper com a ideologia? Dificilmente resolveria, pois uma ideologia só é vencida por outra, como o nazismo foi substituído pelos ideais comunistas. Responsabilidade social? Talvez se o peso da ação e o braço forte e impiedoso das escolhas não recaíssem sobre os de boa índole. Ética? Mas isso realmente significa ser justo dentro da moral regida pela lei?  Difícil dizer. O que irrompe da trama é a escolha. O ato de escolher propõe, constrói, destrói, sufoca, alivia. Mas é nesse movimento  que o humano se constrói. O outro é outro numa dinâmica que eu desconheço, no máximo posso construir um outro a quem eu gostaria de me tornar, mas já não mais seria outro, seria eu.

A peça se emudece em três focos: Christa-Maria (Martina Gedeck) não suporta o peso da ação tomada calcando-se na responsabilidade social e definha diante do pior dos algozes, a consciência. Dreyman recebe a recompensa dos fortes, a liberdade, donde pretensamente descobre que há tempos não habita e que seus segredos não eram somente seus. E finalmente Wiesler parece encontrar em sua ação uma nostalgia, uma reconciliação tardia consigo mesmo. Mas consciente de que a purgação não garante redenção. Melhor dizendo: não há redenção!

No fritar dos ovos a dinâmica do filme não consegue orresponder à sua motivação transgressora, não consegue repensar maniqueísmos. Mas enfim, é um bom filme.

Clique na imagem acima  e veja o trailer.

Eu sou a falta.
A noite recoberta pela ausência, sem lua, sem luz;
Somente a gélida brisa corta o silêncio e encontra-me.
Deus traçou no tempo um caminho.
Minhas lágrimas percorrem velozmente, até que a voz emudeça
E a lacuna se faça lembrança. E o sorriso que outrora reluziu
já não mas revela o gozo.
Não há mais lugares secretos onde o vento sussurra acordes,
Jaz na noite um homem.

A vida partiu sorrateira, abandonando essa carcaça que debulha palavras ao vento…

Mais urgente que responder o que é metafísica seria, para Heidegger, tratar de uma questão metafísica. Nesse sentido, o filósofo se aventura nos caminhos da metafísica na tentativa de responder o que é o nada.

Antes de entrar propriamente na questão do nada, o filósofo lembra que uma questão metafísica traz em si duas características fundamentais. A primeira é que uma questão metafísica deve continuamente abarcar a totalidade, a segunda característica, por sua vez, é que a questão metafísica seja formulada de tal forma que permita colocar em questão, isto é, problematizar aquele que interroga. Em vista disso, “a interrogação metafísica deve desenvolver-se na totalidade e na situação fundamental da existência que se interroga” .

É na produção científica, isto é, no fazer ciência, que o ocorre a incursão do ente. No fazer ciência descobre-se o ente naquilo que é em seu modo de ser. Dessa forma, é o ‘fazer’ ciência uma forma do ente chegar a si mesmo. Nesses termos, Heidegger vê com estranheza o fato do cientista, tendo o ente diante de si, fale de outra coisa: “Pesquisando deve ser apenas o ente e além disso – nada; somente o ente e além dele – nada; unicamente o ente e além disso – nada”.

A preocupação da ciência é, pois, unicamente com o ente. Este ‘nada’ é preocupação do filósofo alemão, é a questão metafísica a ser tratada. Uma vez que a ciência rejeita o nada, colocando-o como aquilo que não existe, é missão da metafísica interrogar a respeito do nada e sua essência nadificante.

Em vista das considerações feitas, é preciso elaborar a questão do nada. Esta questão, enquanto questão metafísica, necessita levar em conta a possibilidade de ser respondida ou evidenciar a impossibilidade da resposta.

A interrogação sobre o nada supõe, antecipadamente, que o nada é, bem como o ente. Esta suposição não é possível, posto que é precisamente do ente que o nada se distingue. Assim, a questão ‘o que é o nada’ iguala-o ao ente. Outro entreva para a definição do nada é que o pensamento tem em sua constituição o chamado princípio da não-contradição, visto que o pensamento é sempre pensamento de alguma coisa. Exigir o pensamento sobre o nada, seria colocá-lo contra sua própria essência. Assim, supondo que a lógica seja a única instancia à qual podemos recorrer para se conhecer determinada coisa e que não é possível converter o nada em um objeto, fica à nós a impossibilidade de desvelamento do nada.

A lógica não é, todavia, a única instancia da metafísica. A metafísica, como a filosofia por excelência[1], pode e coloca em questão o nada, “ainda que fosse como problema que devora a si mesmo. Pois o nada é a negação da totalidade do ente, o absolutamente não-ente”. Entretanto, Heidegger entende que o nada é, pois, mais originário que a negação. Isto faz, consequentemente, que a possibilidade de negação dependa, de certa forma, do nada. Nesses termos, a aparente impossibilidade formal da questão do nada se desfaz ante a formulação válida de que se o nada pode ser questionado, igualmente, pode, também, ser encontrado.

O filósofo entende que utilizamos nós, cotidianamente, algumas definições de nada, que pode-se definir como vulgar. Dentro dessas definições corriqueiras, isto é, vulgares de nada, formulamos sentenças que nos são óbvios. Exemplo disso seria a formulação banal de que o nada seria a plena negação da totalidade do ente. Porém, para Heidegger, são essas proposições óbvias que podem nos dar uma direção. Assim, mesmo cientes da problemática que envolve a relação entre negação e o nada, se afirmarmos que o nada é a plena negação da totalidade do ente, estamos dizendo que a totalidade do ente deve ser previamente desvelada para ser submetida enquanto tal à negação. Somente desse modo é possível o nada se manifestar.

O problema que se configura aqui é a impossibilidade de captação do ser em sua totalidade. A solução, nesse caso, fica a cargo da imaginação: pode-se conceber a totalidade do ente para, então, nega-lo e pensa-lo enquanto negação do ente (ou o ente enquanto negado). Heidegger adverte que essa via é capaz apenas de emitir o conceito formal do nada e não o próprio nada. Porém, uma vez que o nada representa absoluta indefinição, lembra o filósofo, não pode haver diferença entre o conceito formal do nada e o nada autentico. Nesses termos, para que se desvele o nada faz-se imprescindível o desvelamento da totalidade do ente. E, para Heidegger, é certo que não é possível compreender o ente em sua totalidade, entretanto, estamos sempre, de alguma forma, em meio ao ente desvelado em sua totalidade. Nessa formulação não há paradoxo, posto que é perfeitamente possível encontrar si no meio do ente desvelado em sua totalidade sem, porém, compreender a totalidade do ente em si.

No entendimento de Heidegger é justamente quando a totalidade não nos é problema que o ente se revela. Ou seja, o ente em sua totalidade, propriamente dito, se revela ante o tédio. Esse tédio é, porém, específico. Para Heidegger, é o tédio dentro do tédio, o profundo tédio “que como névoa silenciosa desliza para cá e para lá nos abismos da existência, nivela todas as coisas, os homens e a gente mesmo com elas, numa estranha indiferença. Esse tédio manifesta o ente em sua totalidade”.

O sentimento de situação de disposição de humor revela o ente em sua totalidade. Esta é outra possibilidade de manifestação do ente, que consiste na alegria pela presença de outra pessoa querida. Pessoa enquanto existência. Esse revelar do ente na disposição de humor, constitui um acontecimento fundamental do ser-aí.  Todavia, essa forma de desvelamento do ente – na disposição de humor – não nos serve, pois oculta o nada.

Entretanto, no entender de Heidegger, há uma disposição de humor na qual é possível o desvelamento do ente, sem, contudo, que o nada seja dissimulado, isto é, oculto. Mesmo que bastante raro, apenas por instantes, na angústia[2] temos o desvelamento do ser em sua totalidade e, também, nesses instantes é possível apreender o nada. Para Heidegger, a “angústia manifesta o nada”. E isso se dá, na medida em que, suspensos na angústia, ela coloca em fuga o ente em sua totalidade. Na angústia o ente nos escapa. Daí a necessidade de – na angústia – buscar refúgio no seio de outros entes. Assim, no ‘estremecimento desse estar suspenso onde nada há para apoiar-se’, a saber, a angústia que o puro ser-aí se apresenta.

A angústia nos corta a palavra. Pelo fato de o ente em sua totalidade fugir, e assim, justamente, nos acossa o nada, em sua presença, emudece qualquer dicção do ‘é’. O fato de nós procurarmos muitas vezes, na estranheza da angústia, romper o vazio do silencio com palavras sem nexo é apenas o testemunho da presença do nada. Que a angústia se afastou. Na posse da claridade do olhar, a lembrança recente nos leva a dizer: Diante do que e por que nós nos angustiávamos era ‘propriamente’ – nada. Efetivamente: o nada mesmo – enquanto tal – estava aí.

Quando o nada se desvela a linguagem se desvanece. Na fuga do ente em sua totalidade e com a conseqüente ascensão do nada o silêncio é a única possibilidade. As tentativas de romper com esse silêncio são vãs e apenas comprovam a estranheza e o vazio da presença do nada.

Assim, na disposição de humor fundamental da angústia é possível apreender, mesmo que por instantes, o nada e, uma vez manifesto, resta à metafísica questiona-lo. Em vista disso, entendemos, com Heidegger, que o nada revela-se com e no ente, enquanto algo que foge em sua totalidade; o nada assedia na angústia o ser aí. É na angústia, pois, que se retrocede diante ‘de…’. Porém, esse retroceder é diferente da fuga e mais se assemelha a uma quietude fascinada. Esse retroceder diante ‘de…’ recebe seu impulso do nada e este – o impulso – caracteriza-se pela rejeição[3] e não pela atração.

Como já foi dito, o nada nos visita juntamente com a fuga do ente em sua totalidade. Para Heidegger essa rejeição em sua totalidade remete ao ente (em fuga): assim o nada assedia na sua totalidade o ser aí. É essa, pois, a essência do nada, a saber, a nadificação.

O nadificador, no pensamento de Heidegger, revela o ente em sua plena estranheza como o absoluto outro em face do nada. O que faz, portanto, com que a abertura do ente só possa acontecer em pleno nada. Ademais, somente com a revelação do nada pode o ser-aí penetrar no nada. Nesses termos, resta, primeiramente, à essência do nada, isto é, o nadificante, conduzir o ser-aí diante do ente enquanto tal.

Com efeito, pode-se dizer que o ser-aí procede do nada revelado, está suspenso dentro do nada e está além do ente em sua totalidade (transcendência) e que, portanto, só lhe é possível entrar em contato com o ente – consigo mesmo – na medida em que está suspenso no nada. Dessa forma, só há ser em si mesmo na originária revelação do nada. Não há, também, no entendimento de Heidegger, sem a originária revelação do nada, a liberdade. Em suma, o ser aí só pode entrar em relação com o ente quando está suspenso no nada e o nada só se revela na angústia, não sendo possível, assim, apreender sua originariedade.

O aspecto ambíguo do nada, para Heidegger, está no fato de que o nada em seu nadificador, nos remete ao ente. Ainda que ambíguo, é este seu sentido.

É o nada, na perspectiva de Heidegger, a origem da negação e não o contrário, isto é, “a negação radical da totalidade do existente. De todo modo, o nada também constitui o fundamento do ser-aí. Em outras palavras, o nada é vivido pelo homem na medida em que o ser do homem – a existência – não é não pode ser todo o ser, posto que o ser do homem consiste em não ser o ser em sua totalidade que é o nada do ser. Em vista disso, o nada constitui a própria anulação. O nada “é a condição que possibilita, em nosso ser aí, a revelação do existente como tal” .

Em suma, o problema e a procura do ser nascem do fato de o homem não ser o todo do ser, de que seu ser é o nada da totalidade do ser.


[1] Para Heidegger, Filosofia “é apenas o por em marcha a metafísica, na qual a filosofia toma consciência de si e conquista seus temas expressos”.

[2] A definição de angústia na perspectiva de Heidegger: “Por essa angústia não entendemos a assaz freqüente ansiedade que, em última análise, pertence aos fenômenos do temor que com tanta facilidade se mostram. A angústia é radicalmente diferente do temor. Nós nos atemorizamos sempre diante deste ou daquele ente determinado que, sob um ou outro aspecto determinado, nos ameaça. O temor de… sempre teme por algo determinado. Pelo fato de o temor ter como propriedade a limitação ‘de’ (wovor) e de seu ‘por’ (worum), o temeroso e o medroso são retidos por aquilo que nos amedronta. Ao esforçar-se por libertar disto – de algo determinado -, torna-se, quem sente o temor, inseguro com a relação às outras coisas, isto é, perde literalmente a cabeça”, na seqüência Heidegger completa: “A angústia não deixa mais surgir uma tal confusão. Mito antes, perpassa-a uma estranha tranqüilidade. Sem dúvida, a angústia é sempre angústia de… é sempre angustia por… mas não por isto ou aquilo. O carácter de indeterminação daquilo diante de e por que nos angustiamos, contudo, não é apenas uma simples falta de determinação, mas a essencial impossibilidade de indeterminação. Um exemplo conhecido nos pode revelar essa impossibilidade”, e por fim: “Na angústia – dizemos nós – ‘a gente sente-se estranho’. O que suscita tal estranheza é quem é por ela afetado? Não podemos dizer diante de que a gente se sente estranho. A gente se sente totalmente assim. Todas as coisas e nós mesmos afundamo-nos numa indeferença. Isto, entretanto, não no sentido de um simples desaparecer, mas em se afastando elas se voltam para nós. Este afastar-se do ente em sua totalidade, que nos assedia na agústia, nos oprime. Não resta nenhum apoio. Só resta e nos sobrevém – na fuga do ente – este ‘nenhum’” (HEIDEGGER, p. 39, 1979; grifos nossos).

[3] A rejeição remete ao ente em sua totalidade que desaparece.

Aos poucos (ou pouquíssimos) leitores desse blog peço desculpas pela falta de atualização e explico-me: estou sem PC. Simples assim. Não tão simples, todavia, é a solução, visto que depende de dinheiro. Uma quantia considerável, acrescento. Suficiente para um novo. O que complica ainda mais a (minha) vida. Assim, como não disponho da quantia suficiente, fico a utilizar aparelhos, digamos, coletivos (laboratórios de informática, lan house, etc.), e aí, é claro, as atividades acadêmicas têm prioridade, e o blog, que em circunstâncias normais já não recebe a devida atenção, fica ainda mais prejudicado, isto é, literalmente a “Deus dará”.  E por falar no Bom Velhinho – Deus, não o Papai Noel  – , independentemente se você acredita ou não Nele, tire um minutinho do seu dia e faça uma prece pela melhoria da minha situação financeira, pois a coisa “ta brava”. Agora, se você é um daqueles céticos da “linha dura”, que não acredita de forma alguma que uma divindade (se é que ela exista, obviamente) possa intervir na vida humana, mas que isso é tarefa exclusivamente dos homens, fica aqui registrado, que também aceito sua ajuda.

Enfim, nossas desculpas.

Ontem, na volta para casa, aconteceu um milagre. Por volta das 22 h, quando os ônibus mais se assemelham às sardinhas gigantes com rodas, esperávamos na plataforma do eixo na praça da bíblia que, naturalmente, estava lotada (o que é bastante comum para o horário), quando avistamos dois ônibus se aproximando e o inacreditável: um deles bem vazio. Ambos param na plataforma e, simultaneamente, abrem as portas. As pessoas, bem como nós, estavam estarrecidas custando para acreditar no que os olhos mostravam.

Embarcamos no segundo veiculo. Meio ofegante, olho para minha colega e percebo um grande sorriso em seu rosto. Interrogo pelo motivo de tanta felicidade e escuto: “Ah, não é todo dia que se consegue um ônibus vazio assim”, e mais “para fazer um pobre feliz, é necessário apenas coisas simples assim”. Por mais simplório que possa parecer ela estava coberta de razão. Olhei ao meu redor e a maioria das pessoas também estava com um baita sorriso. Era como se todos ali tivessem acaba de ganhar um presente. Minha colega completou: “um rico não tem momentos de felicidade assim”. Logo imaginei um rico entrando no seu Audi com ar condicionado e nessa imagem ele (o rico) estava sisudo. Talvez porque ter um carro só pra si seja uma rotina; afinal por que se alegrar com algo tão banal?

Tentei pensar numa situação que poderia despertar no rico uma alegria semelhante àquela das pessoas ao encontrarem um eixão vazio no horário de pico e o que me veio à mente foi a cena dele ligando para seu piloto particular para pedir que ligasse o jatinho, pois ele já estava próximo e não queria se atrasar para seu compromisso na cidade vizinha. Ao desligar o telefone, antes de dar partida no seu Audi, sorri ao pensar no conforto e comodidade que seu jatinho particular lhe proporciona.

É nessas horas que vejo que a felicidade é para todos. Mesmo que o motivo para o rico seja seu jatinho particular e para o pobre seja um eixão vazio às 22 h. Enfim, somos todos iguais.

Numa dessas aulas que só assistirmos por ser pré-requisito para emissão do diploma, um professor muito mal informado acerca dos problemas filosóficos – o que é perfeitamente compreensivo, posto que, o mesmo, não é da área de filosofia – afirma que o modelo cartesiano de pensamento está superado e o que domina a existência não é mais a consciência, mas a possibilidade da escolha, isto é, a liberdade.

Nesta hora mordo a língua e engulo seco, afinal o professor é que tem a autoridade, principalmente no que tange às minhas notas. De todo modo (e de forma covarde, eu sei), utilizo esse blog para discordar. Está claro que esse professor nunca ouviu falar em Sartre, tão pouco sabe que a escolha (ou liberdade) é condição e não possibilidade. Fica claro, também, que ele jamais se deu o trabalho de pensar a sério sobre o problema, afinal qualquer criança que reflete sobre o assunto pode chegar à conclusão que a consciência de si é algo anterior à liberdade: só posso saber que sou livre e que posso fazer escolhas, se sei quem sou (ou que existo).

Em fim, pode até ser que existam modelos de pensamento que se apresentam como alternativos ao modelo cartesiano, mas nós ocidentais estamos a anos luz de superar-lo.

Embora não tenha nascido na cidade de Aparecida, me considero aparecidense, pois foi nessa cidade que vivi por mais tempo, onde moram meus pais, a maior parte dos meus amigos e onde se passaram as mais significativas experiências da minha vida. Assim, adotei Aparecida como minha cidade natal e não aceito dizer que sou natural de outra cidade. Posso até, eventualmente, ter nascido em outro lugar, mas foi em Aparecida que está toda minha – não muito grande – história de vida (a quem possa interessar: moro em Goiânia a três anos. E não venha me dizer que Aparecida e Goiânia são a mesma coisa, pois, definitivamente, não são).

Historicamente, Aparecida é a cidade problema do estado. É lá que se concentra o maior índice de violência de Goiás, excetuando, obviamente, o entorno de Brasília. É, também, uma cidade com um gigantesco problema de infraestrutura. Falta, asfalto, água tratada e esgoto em mais de 80% dos bairros. Os problemas da saúde e educação, a exemplo do resto do país, são gritantes.

Aparecida, hoje, detêm a segunda maior população do estado, mais de meio milhão de habitantes. Diz-se por aí, que a cidade não cresceu, inchou. Tudo isso devido a sua proximidade com a capital do estado, Anápolis e Brasília. Importante lembrar que Aparecida é mais velha que Goiânia e não se preparou para o fato de, do dia para a noite, dividir seu limite geográfico com a capital. Portanto, Aparecida cresceu (ou inchou) sem nenhum planejamento.

O que quero ressaltar é que, até bem pouco tempo, os problemas de aparecida pareciam não ter solução. Falava-se em décadas para “amenizar” os problemas de infraestrutura da cidade. Interessante perceber como essa “conversa” já havia sido internalizada pela população. Em seus mais de oitenta anos de existência, entrava e saia prefeitos e a cidade continuava na mesma. Ano passado o ex-governador Maguito Vilela foi eleito prefeito e isso fez toda a diferença. Dez meses depois de assumir a prefeitura, a administração municipal transformou a cidade em um grande canteiro de obras. Grande parte dos bairros da cidade estão recebendo a infraestrutura básica – asfalto, água, esgoto –, não aos moldes das administrações anteriores de levar esses benefícios a uma ou duas ruas do bairro, mas estendendo isso a todas as ruas do bairro beneficiado. Além disso, a cidade está visivelmente mais limpa. Na educação, depois de mais um de uma década, a prefeitura promove um concurso público para contratação de profissionais e, recentemente, lançou a Agenda Aparecida, com a finalidade de discutir os problemas da cidade com a população, com os movimentos sociais e instituições. Enfim, não resta dúvida que essa administração é a melhor das últimas décadas, quem sabe, da história da cidade. É impressionante o ritmo da atual administração, em pouco mais dez meses fez o que as últimas quatro ou cinco gestões não conseguiram, talvez por incompetência ou, o que acredito ser mais provável, por má-fé.

Sempre ouvi dizer que o problema da seca do nordeste não é resolvido por não ser politicamente interessante, pois manter a população refém dos carros-pipas é algo, do ponto de vista eleitoral, bastante lucrativo. Isso é, obviamente, uma lógica bastante cruel. Algo bastante próximo sempre aconteceu em Aparecida. O asfalto sempre foi o grande trunfo do pequeno grupo que nos últimos tempos se revezava no poder. A cada quatro anos asfaltavam uma, no máximo duas ruas de determinado bairro conquistando, assim, os votos daquela população. Por isso acredito ser má-fé a inação dos últimos governos municipais. Depois desses primeiros dez meses de administração Maguito Vilela, o velho argumento da falta de recursos, caiu por terra.

Espero que após essa administração a população aparecidense perceba que não precisa mendigar, muito menos de se contentar com esmolas. Oferecer qualidade de vida é um dever do governo (seja municipal, estadual e federal). Ademais, é nosso direito, pois, literalmente, por isso.

Nietzsche é um autor que consegue tirar nosso chão. Os “pilares” de verdades que sustentam o templo de nossas vidas caem por terra quando lemos seus escritos. Aliás, percebemos que nunca existiram. Nietzsche mostra-nos que tudo é instável, tudo muda todo o tempo, dependendo das conveniências dos que fazem a História; que não há, senão, interesses humanos por trás da História.

Entre inúmeras passagens intrigantes, uma me chamou, em especial, a atenção. Em algum aforismo de Aurora, o filósofo alemão lembra que a esperança era um sentimento somente digno de repulsa pelos gregos antigos, pois os impediam de viver o agora. Podemos notar quão grande inversão de valores sofremos durante a história, posto que, na nossa atual sociedade, talvez não exista sentimento mais “nobre” que a esperança. Esta compõe, juntamente com a fé e a caridade, as três grandes virtudes teologais da sociedade ocidental judaico-cristã, sem as quais, o homem não alcança o reino dos céus.

Em todas as situações difíceis que encontramos nos consolamos e, até, encontramos força na idéia de que o amanhã será melhor. Temos esperança em tudo: na democracia, nos direitos humanos, no fim da violência, no fim da pobreza, no fim das guerras, enfim, no futuro melhor. Assim, os questionamentos que Nietzsche coloca nas entrelinhas são: na medida em que esperar (ter esperança) pelo amanhã é contar-se com o hoje, não seria a esperança apenas uma dose de conformismo? Por quais motivos devemos esperar pelo amanhã? A quem interessa que nos contentemos com o hoje?

Para Nietzsche, quando temos esperança, não apenas negamos o agora, mas negamos a vontade de potencia, a vida. Assim, na medida em que não existe nada mais concreto que a vida, ter esperança é negar-se o direito de existir, é negar o valor da vida, é cometer suicídio. Não há garantias de um amanhã melhor, não há, sequer, garantias de um amanhã. Portanto, abrir mão do hoje em favor de um amanhã, é algo, demasiado, estúpido e que todo ser humano deveria repudiar.

Ao contrário do que se possa pensar, Nietzsche não defende um hedonismo desenfreado. Não é possível, em seu pensamento, uma sociedade sem moral e sem normas. O que Nietzsche defende, entretanto, é que os valores sejam fundados a partir de coisas concretos como, por exemplo, a vida; que esses valores sejam racionais e sejam pensados levando em consideração o homem como fim. Pois, para Nietzsche, essa é a grande certeza, tudo o mais é apenas especulação.