Ontem, na volta para casa, aconteceu um milagre. Por volta das 22 h, quando os ônibus mais se assemelham às sardinhas gigantes com rodas, esperávamos na plataforma do eixo na praça da bíblia que, naturalmente, estava lotada (o que é bastante comum para o horário), quando avistamos dois ônibus se aproximando e o inacreditável: um deles bem vazio. Ambos param na plataforma e, simultaneamente, abrem as portas. As pessoas, bem como nós, estavam estarrecidas custando para acreditar no que os olhos mostravam.

Embarcamos no segundo veiculo. Meio ofegante, olho para minha colega e percebo um grande sorriso em seu rosto. Interrogo pelo motivo de tanta felicidade e escuto: “Ah, não é todo dia que se consegue um ônibus vazio assim”, e mais “para fazer um pobre feliz, é necessário apenas coisas simples assim”. Por mais simplório que possa parecer ela estava coberta de razão. Olhei ao meu redor e a maioria das pessoas também estava com um baita sorriso. Era como se todos ali tivessem acaba de ganhar um presente. Minha colega completou: “um rico não tem momentos de felicidade assim”. Logo imaginei um rico entrando no seu Audi com ar condicionado e nessa imagem ele (o rico) estava sisudo. Talvez porque ter um carro só pra si seja uma rotina; afinal por que se alegrar com algo tão banal?

Tentei pensar numa situação que poderia despertar no rico uma alegria semelhante àquela das pessoas ao encontrarem um eixão vazio no horário de pico e o que me veio à mente foi a cena dele ligando para seu piloto particular para pedir que ligasse o jatinho, pois ele já estava próximo e não queria se atrasar para seu compromisso na cidade vizinha. Ao desligar o telefone, antes de dar partida no seu Audi, sorri ao pensar no conforto e comodidade que seu jatinho particular lhe proporciona.

É nessas horas que vejo que a felicidade é para todos. Mesmo que o motivo para o rico seja seu jatinho particular e para o pobre seja um eixão vazio às 22 h. Enfim, somos todos iguais.

Numa dessas aulas que só assistirmos por ser pré-requisito para emissão do diploma, um professor muito mal informado acerca dos problemas filosóficos – o que é perfeitamente compreensivo, posto que, o mesmo, não é da área de filosofia – afirma que o modelo cartesiano de pensamento está superado e o que domina a existência não é mais a consciência, mas a possibilidade da escolha, isto é, a liberdade.

Nesta hora mordo a língua e engulo seco, afinal o professor é que tem a autoridade, principalmente no que tange às minhas notas. De todo modo (e de forma covarde, eu sei), utilizo esse blog para discordar. Está claro que esse professor nunca ouviu falar em Sartre, tão pouco sabe que a escolha (ou liberdade) é condição e não possibilidade. Fica claro, também, que ele jamais se deu o trabalho de pensar a sério sobre o problema, afinal qualquer criança que reflete sobre o assunto pode chegar à conclusão que a consciência de si é algo anterior à liberdade: só posso saber que sou livre e que posso fazer escolhas, se sei quem sou (ou que existo).

Em fim, pode até ser que existam modelos de pensamento que se apresentam como alternativos ao modelo cartesiano, mas nós ocidentais estamos a anos luz de superar-lo.

Embora não tenha nascido na cidade de Aparecida, me considero aparecidense, pois foi nessa cidade que vivi por mais tempo, onde moram meus pais, a maior parte dos meus amigos e onde se passaram as mais significativas experiências da minha vida. Assim, adotei Aparecida como minha cidade natal e não aceito dizer que sou natural de outra cidade. Posso até, eventualmente, ter nascido em outro lugar, mas foi em Aparecida que está toda minha – não muito grande – história de vida (a quem possa interessar: moro em Goiânia a três anos. E não venha me dizer que Aparecida e Goiânia são a mesma coisa, pois, definitivamente, não são).

Historicamente, Aparecida é a cidade problema do estado. É lá que se concentra o maior índice de violência de Goiás, excetuando, obviamente, o entorno de Brasília. É, também, uma cidade com um gigantesco problema de infraestrutura. Falta, asfalto, água tratada e esgoto em mais de 80% dos bairros. Os problemas da saúde e educação, a exemplo do resto do país, são gritantes.

Aparecida, hoje, detêm a segunda maior população do estado, mais de meio milhão de habitantes. Diz-se por aí, que a cidade não cresceu, inchou. Tudo isso devido a sua proximidade com a capital do estado, Anápolis e Brasília. Importante lembrar que Aparecida é mais velha que Goiânia e não se preparou para o fato de, do dia para a noite, dividir seu limite geográfico com a capital. Portanto, Aparecida cresceu (ou inchou) sem nenhum planejamento.

O que quero ressaltar é que, até bem pouco tempo, os problemas de aparecida pareciam não ter solução. Falava-se em décadas para “amenizar” os problemas de infraestrutura da cidade. Interessante perceber como essa “conversa” já havia sido internalizada pela população. Em seus mais de oitenta anos de existência, entrava e saia prefeitos e a cidade continuava na mesma. Ano passado o ex-governador Maguito Vilela foi eleito prefeito e isso fez toda a diferença. Dez meses depois de assumir a prefeitura, a administração municipal transformou a cidade em um grande canteiro de obras. Grande parte dos bairros da cidade estão recebendo a infraestrutura básica – asfalto, água, esgoto –, não aos moldes das administrações anteriores de levar esses benefícios a uma ou duas ruas do bairro, mas estendendo isso a todas as ruas do bairro beneficiado. Além disso, a cidade está visivelmente mais limpa. Na educação, depois de mais um de uma década, a prefeitura promove um concurso público para contratação de profissionais e, recentemente, lançou a Agenda Aparecida, com a finalidade de discutir os problemas da cidade com a população, com os movimentos sociais e instituições. Enfim, não resta dúvida que essa administração é a melhor das últimas décadas, quem sabe, da história da cidade. É impressionante o ritmo da atual administração, em pouco mais dez meses fez o que as últimas quatro ou cinco gestões não conseguiram, talvez por incompetência ou, o que acredito ser mais provável, por má-fé.

Sempre ouvi dizer que o problema da seca do nordeste não é resolvido por não ser politicamente interessante, pois manter a população refém dos carros-pipas é algo, do ponto de vista eleitoral, bastante lucrativo. Isso é, obviamente, uma lógica bastante cruel. Algo bastante próximo sempre aconteceu em Aparecida. O asfalto sempre foi o grande trunfo do pequeno grupo que nos últimos tempos se revezava no poder. A cada quatro anos asfaltavam uma, no máximo duas ruas de determinado bairro conquistando, assim, os votos daquela população. Por isso acredito ser má-fé a inação dos últimos governos municipais. Depois desses primeiros dez meses de administração Maguito Vilela, o velho argumento da falta de recursos, caiu por terra.

Espero que após essa administração a população aparecidense perceba que não precisa mendigar, muito menos de se contentar com esmolas. Oferecer qualidade de vida é um dever do governo (seja municipal, estadual e federal). Ademais, é nosso direito, pois, literalmente, por isso.

Nietzsche é um autor que consegue tirar nosso chão. Os “pilares” de verdades que sustentam o templo de nossas vidas caem por terra quando lemos seus escritos. Aliás, percebemos que nunca existiram. Nietzsche mostra-nos que tudo é instável, tudo muda todo o tempo, dependendo das conveniências dos que fazem a História; que não há, senão, interesses humanos por trás da História.

Entre inúmeras passagens intrigantes, uma me chamou, em especial, a atenção. Em algum aforismo de Aurora, o filósofo alemão lembra que a esperança era um sentimento somente digno de repulsa pelos gregos antigos, pois os impediam de viver o agora. Podemos notar quão grande inversão de valores sofremos durante a história, posto que, na nossa atual sociedade, talvez não exista sentimento mais “nobre” que a esperança. Esta compõe, juntamente com a fé e a caridade, as três grandes virtudes teologais da sociedade ocidental judaico-cristã, sem as quais, o homem não alcança o reino dos céus.

Em todas as situações difíceis que encontramos nos consolamos e, até, encontramos força na idéia de que o amanhã será melhor. Temos esperança em tudo: na democracia, nos direitos humanos, no fim da violência, no fim da pobreza, no fim das guerras, enfim, no futuro melhor. Assim, os questionamentos que Nietzsche coloca nas entrelinhas são: na medida em que esperar (ter esperança) pelo amanhã é contar-se com o hoje, não seria a esperança apenas uma dose de conformismo? Por quais motivos devemos esperar pelo amanhã? A quem interessa que nos contentemos com o hoje?

Para Nietzsche, quando temos esperança, não apenas negamos o agora, mas negamos a vontade de potencia, a vida. Assim, na medida em que não existe nada mais concreto que a vida, ter esperança é negar-se o direito de existir, é negar o valor da vida, é cometer suicídio. Não há garantias de um amanhã melhor, não há, sequer, garantias de um amanhã. Portanto, abrir mão do hoje em favor de um amanhã, é algo, demasiado, estúpido e que todo ser humano deveria repudiar.

Ao contrário do que se possa pensar, Nietzsche não defende um hedonismo desenfreado. Não é possível, em seu pensamento, uma sociedade sem moral e sem normas. O que Nietzsche defende, entretanto, é que os valores sejam fundados a partir de coisas concretos como, por exemplo, a vida; que esses valores sejam racionais e sejam pensados levando em consideração o homem como fim. Pois, para Nietzsche, essa é a grande certeza, tudo o mais é apenas especulação.

Olimpíadas no Rio de Janeiro; prova do Enem roubada; crise de criatividade; enchentes pelo Brasil e pelo mundo; acidente com o Massa; golpe de estado em Honduras; créditos a mais na universidade; vitória da seleção brasileira sobre a seleção da Argentina; Nelsinho trapaceando na Fórmula 1; decepção com o terceiro filme de Bleach; homicídio de Michael Jackson; candidatura de Marina Silva; disputa pelo pré-sal; Henrique Meirelles se filiando ao PMDB; monitoria de disciplina; eleições na Alemanha, Japão, Portugal, Grécia … e Tocantins (esta indireta); Zelaya abrigado em embaixada brasileira; excesso de trabalho; diminuição da pobreza no Brasil; Caminho das Índias chega ao fim; bacanal de primeiro ministro italiano; reforma em casa; epidemia de gripe suína; fechamento de N1; alergia brava; greve no Banco do Brasil, greve na Caixa; novo marco regulatório do petróleo; 1º. e 2º. temporada de Heroes. Eis aí alguns dos motivos e desculpas por tão longa ausência do blog.

ailusaodalivreescolha

Assim como o Pelé calado é um poeta (ROMÁRIO, Baixinho), existem pessoas cujo silêncio é a grande contribuição que podem dar à humanidade. Além do Pelé, Romário também faz parte dessa lista. Acredito não exagerar colocando, de modo geral, os jogadores de futebol nessa lista, salvo, é claro, raríssimas exceções. Várias personalidades públicas, isto é, que aparecem na mídia, deveriam ser advertidas acerca dessa grande contribuição que poderiam estar oferecendo à humanidade e, no entanto, não o fazem. Talvez por pura desinformação, quem sabe? Coloco nessa lista pessoas fúteis como Hebe Camargo, Galvão Bueno, Márcia Goldschmidt, Raul Gil, Gilberto Barros, Ratinho, Gugu, Xuxa, Luciano do Valle, Cléber Machado, Glória Maria, etc., mas, também, personalidades “respeitadas” como Diogo Mainardi, Pedro Bial (já ouviram aquela poesia-canção?), Miriam Leitão, Carlos Alberto Sademberg, Reinaldo Azevedo e, obviamente, vários políticos (Maluf, Garotinho, quase todos os tucanos, todos os demos, Severino Cavalcanti, etc., etc., etc.).

E no dia a dia? Essa semana, por exemplo, ouvi que as cadelas, bem como todos os animais fêmeas, não sentem dor ao parir e que, portanto, a mulher também não sente. No raciocínio dessa pessoa, a dor do parto nas mulheres é psicológica. Juro que não reagi. Outro fato curioso, por assim dizer, ocorreu há algum tempo, nas aulas teóricas de trânsito. Entre muitas “pérolas” o professor de legislação de trânsito soltou uma daquelas: “O Brasil é um país de regime socialista”. Não foi uma frase infeliz ou solta, pois argumentou defendendo sua tese. O raciocínio apresentado para justificar a afirmação foi o fato de o governo cobrar imposto de renda da camada mais rica da sociedade brasileira e converter essa arrecadação em benefícios para a camada mais pobre. Isso faria, no pensamento do meu professor de legislação no trânsito, do Brasil um país socialista. Não houve reação. Ninguém disse nada. Deus sabe o sacrifício que fiz para não sair da sala. Pensei em retrucar, mas vi que não valeria à pena. Minha grande dúvida, entretanto, era o silêncio daquela turma, ante tal afirmação absurda. Será que concordaram? Ou, como fiz, ignoraram? Preferi acreditar na segunda hipótese. Tendo em vista, porém, que era um ato de pura fé.

Apesar de considerar Saramago gênio, do melhor livro que já li – Cem anos de solidão – ter sido escrito por Gabriel Garcia Marques, de ter devorado quase toda a obra de Machado de Assis e Eça de Queiroz, de sentir quase na ponta da língua o sabor da literatura do Dostoievski e de ir ao gozo com as poesias de Fernando Pessoa, não há, para mim, literatura melhor do que a de Albert Camus.

Acredito que isso se dê não apenas pela literatura em si, mas pela identificação pessoal que tenho com o autor. A impressão que tenho é que ele transformou em palavras todos os meus pensamentos, sentimentos, dúvidas e indignações. A procura incessante de Camus pelo significado da existência, sua postura diante do sentimento de absurdo do homem para com o mundo, suas críticas às doutrinas e, principalmente, a descrição do sentimento de estrangeiro que todo homem carrega consigo: aquela sensação que brota das entranhas de que não se pertence a esse mundo, de ser um exilado numa pátria estranha, e, apesar de sentir-se no exílio, não saber qual o lugar de origem.

Toda essa angustiante realidade da existência Camus transforma em palavras. Acrescente-se a isso seu ativismo político e social, seu profundo conhecimento acerca do cristianismo – seu doutorado foi em Santo Agostinho –, sua aversão a doutrinas e sistemas e sua habilidade com escrita, adquirida através de anos de experiência no jornalismo, uma vez que não pode lecionar devido à problemas de saúde.

Recebeu, merecidamente, em 1957 o Nobel de literatura, antes mesmo que Sartre. Com qual Camus manteve grande amizade, rompida publicamente devido à devoção cega de Sartre ao comunismo de Stalin e morreu pouco tempo depois em um acidente de carro.

Uma pena Camus não ser receber a devida atenção nos cursos de filosofia.

Acompanho sempre o blog da Sofista. Muito legal os textos dela. Recentemente li algumas considerações dela sobre o filme Phartom, de Murnau. Tamanha a empolgação com que o enredo foi descrito, que despertou minha curiosidade. Vasculhei pela internet e o encontrei nas Torrents da vida. O vi, e gostei do que vi. Como tenho encontrado motivações surpreendentes para desenhar que  resolvi homenageia-la (A Sofista)  como esse desenho. A ilustração foi feita apressadamente, mas na verdade o que vale é a intenção, pelo menos até que a técnica possa ser o meu alibe.

Aconselho a ler as considerações no proprio Peri-patético. Clique aqui e confira.

universo solidao editado cópiaNão costumo colocar legenda nas minhas ilustrações no intuito de que, cada pessoa possa entendê-la a sua maneira.