Mais urgente que responder o que é metafísica seria, para Heidegger, tratar de uma questão metafísica. Nesse sentido, o filósofo se aventura nos caminhos da metafísica na tentativa de responder o que é o nada.
Antes de entrar propriamente na questão do nada, o filósofo lembra que uma questão metafísica traz em si duas características fundamentais. A primeira é que uma questão metafísica deve continuamente abarcar a totalidade, a segunda característica, por sua vez, é que a questão metafísica seja formulada de tal forma que permita colocar em questão, isto é, problematizar aquele que interroga. Em vista disso, “a interrogação metafísica deve desenvolver-se na totalidade e na situação fundamental da existência que se interroga” .
É na produção científica, isto é, no fazer ciência, que o ocorre a incursão do ente. No fazer ciência descobre-se o ente naquilo que é em seu modo de ser. Dessa forma, é o ‘fazer’ ciência uma forma do ente chegar a si mesmo. Nesses termos, Heidegger vê com estranheza o fato do cientista, tendo o ente diante de si, fale de outra coisa: “Pesquisando deve ser apenas o ente e além disso – nada; somente o ente e além dele – nada; unicamente o ente e além disso – nada”.
A preocupação da ciência é, pois, unicamente com o ente. Este ‘nada’ é preocupação do filósofo alemão, é a questão metafísica a ser tratada. Uma vez que a ciência rejeita o nada, colocando-o como aquilo que não existe, é missão da metafísica interrogar a respeito do nada e sua essência nadificante.
Em vista das considerações feitas, é preciso elaborar a questão do nada. Esta questão, enquanto questão metafísica, necessita levar em conta a possibilidade de ser respondida ou evidenciar a impossibilidade da resposta.
A interrogação sobre o nada supõe, antecipadamente, que o nada é, bem como o ente. Esta suposição não é possível, posto que é precisamente do ente que o nada se distingue. Assim, a questão ‘o que é o nada’ iguala-o ao ente. Outro entreva para a definição do nada é que o pensamento tem em sua constituição o chamado princípio da não-contradição, visto que o pensamento é sempre pensamento de alguma coisa. Exigir o pensamento sobre o nada, seria colocá-lo contra sua própria essência. Assim, supondo que a lógica seja a única instancia à qual podemos recorrer para se conhecer determinada coisa e que não é possível converter o nada em um objeto, fica à nós a impossibilidade de desvelamento do nada.
A lógica não é, todavia, a única instancia da metafísica. A metafísica, como a filosofia por excelência[1], pode e coloca em questão o nada, “ainda que fosse como problema que devora a si mesmo. Pois o nada é a negação da totalidade do ente, o absolutamente não-ente”. Entretanto, Heidegger entende que o nada é, pois, mais originário que a negação. Isto faz, consequentemente, que a possibilidade de negação dependa, de certa forma, do nada. Nesses termos, a aparente impossibilidade formal da questão do nada se desfaz ante a formulação válida de que se o nada pode ser questionado, igualmente, pode, também, ser encontrado.
O filósofo entende que utilizamos nós, cotidianamente, algumas definições de nada, que pode-se definir como vulgar. Dentro dessas definições corriqueiras, isto é, vulgares de nada, formulamos sentenças que nos são óbvios. Exemplo disso seria a formulação banal de que o nada seria a plena negação da totalidade do ente. Porém, para Heidegger, são essas proposições óbvias que podem nos dar uma direção. Assim, mesmo cientes da problemática que envolve a relação entre negação e o nada, se afirmarmos que o nada é a plena negação da totalidade do ente, estamos dizendo que a totalidade do ente deve ser previamente desvelada para ser submetida enquanto tal à negação. Somente desse modo é possível o nada se manifestar.
O problema que se configura aqui é a impossibilidade de captação do ser em sua totalidade. A solução, nesse caso, fica a cargo da imaginação: pode-se conceber a totalidade do ente para, então, nega-lo e pensa-lo enquanto negação do ente (ou o ente enquanto negado). Heidegger adverte que essa via é capaz apenas de emitir o conceito formal do nada e não o próprio nada. Porém, uma vez que o nada representa absoluta indefinição, lembra o filósofo, não pode haver diferença entre o conceito formal do nada e o nada autentico. Nesses termos, para que se desvele o nada faz-se imprescindível o desvelamento da totalidade do ente. E, para Heidegger, é certo que não é possível compreender o ente em sua totalidade, entretanto, estamos sempre, de alguma forma, em meio ao ente desvelado em sua totalidade. Nessa formulação não há paradoxo, posto que é perfeitamente possível encontrar si no meio do ente desvelado em sua totalidade sem, porém, compreender a totalidade do ente em si.
No entendimento de Heidegger é justamente quando a totalidade não nos é problema que o ente se revela. Ou seja, o ente em sua totalidade, propriamente dito, se revela ante o tédio. Esse tédio é, porém, específico. Para Heidegger, é o tédio dentro do tédio, o profundo tédio “que como névoa silenciosa desliza para cá e para lá nos abismos da existência, nivela todas as coisas, os homens e a gente mesmo com elas, numa estranha indiferença. Esse tédio manifesta o ente em sua totalidade”.
O sentimento de situação de disposição de humor revela o ente em sua totalidade. Esta é outra possibilidade de manifestação do ente, que consiste na alegria pela presença de outra pessoa querida. Pessoa enquanto existência. Esse revelar do ente na disposição de humor, constitui um acontecimento fundamental do ser-aí. Todavia, essa forma de desvelamento do ente – na disposição de humor – não nos serve, pois oculta o nada.
Entretanto, no entender de Heidegger, há uma disposição de humor na qual é possível o desvelamento do ente, sem, contudo, que o nada seja dissimulado, isto é, oculto. Mesmo que bastante raro, apenas por instantes, na angústia[2] temos o desvelamento do ser em sua totalidade e, também, nesses instantes é possível apreender o nada. Para Heidegger, a “angústia manifesta o nada”. E isso se dá, na medida em que, suspensos na angústia, ela coloca em fuga o ente em sua totalidade. Na angústia o ente nos escapa. Daí a necessidade de – na angústia – buscar refúgio no seio de outros entes. Assim, no ‘estremecimento desse estar suspenso onde nada há para apoiar-se’, a saber, a angústia que o puro ser-aí se apresenta.
A angústia nos corta a palavra. Pelo fato de o ente em sua totalidade fugir, e assim, justamente, nos acossa o nada, em sua presença, emudece qualquer dicção do ‘é’. O fato de nós procurarmos muitas vezes, na estranheza da angústia, romper o vazio do silencio com palavras sem nexo é apenas o testemunho da presença do nada. Que a angústia se afastou. Na posse da claridade do olhar, a lembrança recente nos leva a dizer: Diante do que e por que nós nos angustiávamos era ‘propriamente’ – nada. Efetivamente: o nada mesmo – enquanto tal – estava aí.
Quando o nada se desvela a linguagem se desvanece. Na fuga do ente em sua totalidade e com a conseqüente ascensão do nada o silêncio é a única possibilidade. As tentativas de romper com esse silêncio são vãs e apenas comprovam a estranheza e o vazio da presença do nada.
Assim, na disposição de humor fundamental da angústia é possível apreender, mesmo que por instantes, o nada e, uma vez manifesto, resta à metafísica questiona-lo. Em vista disso, entendemos, com Heidegger, que o nada revela-se com e no ente, enquanto algo que foge em sua totalidade; o nada assedia na angústia o ser aí. É na angústia, pois, que se retrocede diante ‘de…’. Porém, esse retroceder é diferente da fuga e mais se assemelha a uma quietude fascinada. Esse retroceder diante ‘de…’ recebe seu impulso do nada e este – o impulso – caracteriza-se pela rejeição[3] e não pela atração.
Como já foi dito, o nada nos visita juntamente com a fuga do ente em sua totalidade. Para Heidegger essa rejeição em sua totalidade remete ao ente (em fuga): assim o nada assedia na sua totalidade o ser aí. É essa, pois, a essência do nada, a saber, a nadificação.
O nadificador, no pensamento de Heidegger, revela o ente em sua plena estranheza como o absoluto outro em face do nada. O que faz, portanto, com que a abertura do ente só possa acontecer em pleno nada. Ademais, somente com a revelação do nada pode o ser-aí penetrar no nada. Nesses termos, resta, primeiramente, à essência do nada, isto é, o nadificante, conduzir o ser-aí diante do ente enquanto tal.
Com efeito, pode-se dizer que o ser-aí procede do nada revelado, está suspenso dentro do nada e está além do ente em sua totalidade (transcendência) e que, portanto, só lhe é possível entrar em contato com o ente – consigo mesmo – na medida em que está suspenso no nada. Dessa forma, só há ser em si mesmo na originária revelação do nada. Não há, também, no entendimento de Heidegger, sem a originária revelação do nada, a liberdade. Em suma, o ser aí só pode entrar em relação com o ente quando está suspenso no nada e o nada só se revela na angústia, não sendo possível, assim, apreender sua originariedade.
O aspecto ambíguo do nada, para Heidegger, está no fato de que o nada em seu nadificador, nos remete ao ente. Ainda que ambíguo, é este seu sentido.
É o nada, na perspectiva de Heidegger, a origem da negação e não o contrário, isto é, “a negação radical da totalidade do existente. De todo modo, o nada também constitui o fundamento do ser-aí. Em outras palavras, o nada é vivido pelo homem na medida em que o ser do homem – a existência – não é não pode ser todo o ser, posto que o ser do homem consiste em não ser o ser em sua totalidade que é o nada do ser. Em vista disso, o nada constitui a própria anulação. O nada “é a condição que possibilita, em nosso ser aí, a revelação do existente como tal” .
Em suma, o problema e a procura do ser nascem do fato de o homem não ser o todo do ser, de que seu ser é o nada da totalidade do ser.
[1] Para Heidegger, Filosofia “é apenas o por em marcha a metafísica, na qual a filosofia toma consciência de si e conquista seus temas expressos”.
[2] A definição de angústia na perspectiva de Heidegger: “Por essa angústia não entendemos a assaz freqüente ansiedade que, em última análise, pertence aos fenômenos do temor que com tanta facilidade se mostram. A angústia é radicalmente diferente do temor. Nós nos atemorizamos sempre diante deste ou daquele ente determinado que, sob um ou outro aspecto determinado, nos ameaça. O temor de… sempre teme por algo determinado. Pelo fato de o temor ter como propriedade a limitação ‘de’ (wovor) e de seu ‘por’ (worum), o temeroso e o medroso são retidos por aquilo que nos amedronta. Ao esforçar-se por libertar disto – de algo determinado -, torna-se, quem sente o temor, inseguro com a relação às outras coisas, isto é, perde literalmente a cabeça”, na seqüência Heidegger completa: “A angústia não deixa mais surgir uma tal confusão. Mito antes, perpassa-a uma estranha tranqüilidade. Sem dúvida, a angústia é sempre angústia de… é sempre angustia por… mas não por isto ou aquilo. O carácter de indeterminação daquilo diante de e por que nos angustiamos, contudo, não é apenas uma simples falta de determinação, mas a essencial impossibilidade de indeterminação. Um exemplo conhecido nos pode revelar essa impossibilidade”, e por fim: “Na angústia – dizemos nós – ‘a gente sente-se estranho’. O que suscita tal estranheza é quem é por ela afetado? Não podemos dizer diante de que a gente se sente estranho. A gente se sente totalmente assim. Todas as coisas e nós mesmos afundamo-nos numa indeferença. Isto, entretanto, não no sentido de um simples desaparecer, mas em se afastando elas se voltam para nós. Este afastar-se do ente em sua totalidade, que nos assedia na agústia, nos oprime. Não resta nenhum apoio. Só resta e nos sobrevém – na fuga do ente – este ‘nenhum’” (HEIDEGGER, p. 39, 1979; grifos nossos).
[3] A rejeição remete ao ente em sua totalidade que desaparece.